Conteúdo de saúde. Este texto informa sobre o acesso a serviços; não substitui atendimento. Se o sofrimento estiver intenso agora, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.
Muito adolescente pesquisa isso antes de aceitar fazer terapia: se eu contar alguma coisa para o psicólogo, ele vai falar para os meus pais? A dúvida é justa. Ninguém se abre num lugar onde acha que vai ser exposto. A resposta curta é: em regra, não. O que é dito na sessão fica protegido pelo sigilo. Mas o sigilo tem limites, e eles estão escritos nas normas. Este texto mostra exatamente quais são, sem rodeio.
A regra: sigilo
O Código de Ética Profissional do Psicólogo, no artigo 9º, diz que é dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional para proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas que atende. Essa regra vale para adolescentes também.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, considera adolescente quem tem entre doze e dezoito anos. E, no artigo 17, protege o direito ao respeito, que inclui a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, das ideias e dos espaços pessoais. O sigilo na terapia é uma das formas de respeitar isso.
O que os pais recebem
Aqui está o ponto mais importante. O artigo 13 do Código de Ética diz: no atendimento ao adolescente, deve ser comunicado aos responsáveis o estritamente essencial para se promoverem medidas em seu benefício.
Cada palavra dessa frase conta:
- Estritamente essencial. Não é um resumo das sessões. Não é o que o adolescente disse. É o mínimo necessário.
- Para se promoverem medidas. A informação tem uma finalidade: permitir que os pais façam algo que ajude.
- Em seu benefício. O beneficiário é o adolescente, não a curiosidade dos adultos.
Na prática, os pais costumam saber coisas como a frequência das sessões, se o adolescente está comparecendo, orientações gerais de como apoiar em casa e, se for o caso, a indicação de outro profissional. O conteúdo das conversas, os segredos, os relacionamentos, as opiniões sobre a família, isso fica na sala.
Muitos profissionais combinam no início, com o adolescente e com os pais, como será essa comunicação. Perguntar isso ao psicólogo logo no primeiro encontro é uma forma de saber o que esperar.
Os pais precisam autorizar?
Sim, para um acompanhamento continuado. O artigo 8º do Código de Ética exige, para atendimento não eventual de adolescente, autorização de ao menos um dos responsáveis. Na psicoterapia, a Resolução CFP nº 13, de 2022, pede que essa autorização seja por escrito, antes do início.
Isso quer dizer que pelo menos um responsável vai saber que a terapia existe. Mas saber que ela existe é diferente de saber o que se fala nela. A autorização não dá aos pais acesso ao conteúdo das sessões.
E se nenhum responsável legal se apresentar? O mesmo artigo 8º prevê que, nesse caso, o atendimento deve ser feito e comunicado às autoridades competentes. Ou seja, a falta de um responsável não impede o atendimento.
Quando o sigilo pode ser quebrado
O sigilo não é absoluto. As situações em que ele cede são poucas e têm um ponto em comum: proteger alguém de dano sério.
Risco à vida. Quando o psicólogo identifica risco sério à vida do adolescente, ele pode compartilhar informações com os responsáveis ou com a rede de saúde para que o adolescente seja protegido. O CRP da 18ª Região inclui as suspeitas de suicídio entre as situações com dever de notificação.
Violência contra o adolescente. Pelo ECA, casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra adolescente são obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar. A Resolução CFP 13/2022 também prevê que o psicólogo, ao saber de violência ou suspeita de violência contra o adolescente, preencha a notificação obrigatória do Ministério da Saúde e a encaminhe ao Conselho Tutelar ou autoridade competente. Isso vale inclusive quando a violência acontece dentro de casa.
Outros conflitos graves. O artigo 10 do Código permite ao psicólogo decidir pela quebra de sigilo quando houver conflito entre o sigilo e os princípios fundamentais do Código, baseando a decisão na busca do menor prejuízo.
Em todos esses casos, há uma regra que protege o adolescente: o psicólogo deve restringir-se a prestar as informações estritamente necessárias. Quebrar o sigilo sobre um ponto não abre todo o resto.
O que não é motivo para contar aos pais
Com base nessas regras, assuntos que fazem parte da vida do adolescente, sem risco sério, não estão entre as exceções. Namoro, orientação sexual, identidade de gênero, conflitos com os pais, notas, amizades, dúvidas sobre religião ou opiniões sobre a família são temas que o adolescente pode levar à terapia sem que isso vire informação para casa.
O Código de Ética também veda ao psicólogo induzir convicções morais, religiosas ou de orientação sexual. A terapia não é um lugar de julgamento.
Quando os pais pedem para saber mais
É comum que pais preocupados liguem para o psicólogo ou peçam uma conversa. Isso é legítimo: os responsáveis também podem levar ao profissional o que observam em casa e o que os inquieta. O psicólogo escuta, pode orientar a família de forma geral e explica os limites do que pode compartilhar. O que ele não faz é relatar o conteúdo das sessões.
Quando os pais insistem em saber detalhes, o psicólogo costuma explicar que a confiança do adolescente no espaço da terapia é justamente o que permite que o trabalho aconteça. Sem sigilo, muitos adolescentes deixariam de falar.
O sigilo vale em qualquer lugar
A regra do sigilo é do Código de Ética da profissão, e por isso vale para qualquer psicólogo: no consultório particular, na clínica-escola, na UBS, no CAPS, na escola ou no atendimento online. O que muda de um lugar para outro é a organização do serviço, não o dever de sigilo.
Se o adolescente quiser buscar ajuda por conta própria
Há portas abertas no SUS. O CAPS i atende crianças e adolescentes com sofrimento psíquico intenso, e a UBS é a porta de entrada da rede. Veja psicólogo para adolescente e encaminhamento na UBS. Para entender o sigilo de forma geral, veja sigilo do psicólogo.
Se estiver difícil agora, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo 188, 24 horas, com conversa sigilosa. A página em crise: onde buscar ajuda agora reúne os contatos imediatos. O atendimento psicológico no SUS, pela UBS e pelo CAPS, é gratuito.
Perguntas frequentes
O psicólogo conta para os pais o que eu falo na sessão?
Não. Pelo Código de Ética, aos responsáveis é comunicado só o estritamente essencial para promover medidas em benefício do adolescente. O conteúdo das sessões fica protegido pelo sigilo.
Meus pais precisam saber que eu faço terapia?
Para um acompanhamento continuado, sim: o Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável, e na psicoterapia ela é por escrito. Saber que a terapia existe não dá acesso ao que é dito nela.
Em que situações o psicólogo pode contar algo aos pais?
Quando for necessário para proteger o adolescente, como em situações de risco à vida ou de violência. Mesmo assim, o psicólogo compartilha só o estritamente necessário, buscando o menor prejuízo.
E se a violência acontecer dentro de casa?
A suspeita de violência contra adolescente é comunicada ao Conselho Tutelar ou autoridade competente, com notificação obrigatória. A proteção do adolescente vem antes do sigilo nessas situações.
Fontes
- Código de Ética Profissional do PsicólogoConselho Federal de Psicologia, consultado em 28 de setembro de 2026
- Sigilo Profissional, perguntas frequentesConselho Regional de Psicologia 10ª Região (PA/AP), consultado em 28 de setembro de 2026
- Orientação Técnica, Quebra de sigiloConselho Regional de Psicologia 18ª Região (MT), consultado em 28 de setembro de 2026
- Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente)Presidência da República, consultado em 28 de setembro de 2026
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)Ministério da Saúde, consultado em 28 de setembro de 2026
- CVV, Centro de Valorização da VidaCVV, consultado em 28 de setembro de 2026